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CASA NOVA

 

Miguel e Gabriela haviam acabado de deitar em sua cama. Eram aproximadamente duas horas da madrugada e ambos estavam mortos de cansaço depois de um dia inteiro dedicado à mudança. Haviam deixado sua casa no interior do Estado de São Paulo e se mudado para um apartamento na Capital. Abriram mão de todos os benefícios que uma cidade pequena lhes proporcionava na esperança de que o novo emprego de Miguel lhes possibilitasse uma vida mais tranquila, financeiramente falando.

Relaxada e esperando o sono chegar, Gabriela assistia à reprise de um telejornal em um canal qualquer. O apresentador noticiava que um casal havia sido assassinado enquanto dormia e que o principal suspeito era um homem de meia idade, com uma barba enorme e maltrapilha, supostamente um morador de rua.

 

Miguel se levantou e foi barbear-se no banheiro da suíte enquanto pensava no trabalho que teria no dia seguinte, pois sua vida inteira estava encaixotada pelo assoalho.

 

Enquanto o apresentador do telejornal seguia em frente sem se deter, Miguel saiu do banheiro e ligou o barulhento e antigo ar-condicionado que já estava instalado na parede do apartamento.

 

– Desse jeito eu não consigo nem ouvir as notícias – disse Gabriela.

– Aumente o volume da TV… O calor está insuportável – retrucou Miguel, enquanto secava o rosto com uma toalha – quer algo para comer? Estou morrendo de fome…

– Não, estou bem – disse a esposa, enquanto aumentava o volume da televisão.

 

O jovem fechou a porta e dirigiu-se a cozinha, não atentando ao que o apresentador falava, retomando a notícia do casal assassinado. Dizia que, de acordo com câmeras de segurança, aparentemente um mendigo fora visto deixando o local do crime, que havia acontecido no dia anterior, a poucos quilômetros dali.

 

Preparava um sanduíche de pão de forma com maionese e queijo quando o interfone tocou. Miguel atendeu e não houve resposta do outro lado da linha. Abriu a janela da cozinha e olhou para baixo, tentando ver se havia alguém na portaria do prédio. Não havia ninguém, mas o portão de passagem de moradores estava batendo ao sabor do vendo. Imaginou que o porteiro estivesse por perto e voltou para a cozinha.

 

Miguel não conseguia relaxar a mente por completo. Sabia que era estranho, mas como moravam de aluguel e já haviam se mudado para cinco ou seis endereços diferentes, havia sempre uma sensação de insegurança na primeira noite em que dormia em uma nova locação. Sentia um daqueles incômodos irracionais que nos assolam sem razão lógica aparente. Mas isso nunca tirou o seu sono. De repente, algo quebra o silêncio na cozinha. Um baque forte e um gemido alto, mas parecido com um grunhido, imediatamente abafado, veio do apartamento ao lado. Miguel ficou estático com a faca suja de maionese na mão, pingando no piso branco. Contudo, logo pensou que o casal de novos vizinhos deveria estar fazendo algum joguinho sexual e que, talvez, se excederam um pouco. Sorriu maliciosamente, imaginando o que estariam fazendo.

 

Após preparar sua refeição e encher um copo com Pepsi e gelo, foi até o quarto, onde verificou que Gabriela já dormia. Deixou a TV ligada, pois sabia que ela acordaria se repentinamente o silêncio tomasse o ambiente. Embora o ar-condicionado barulhento tornasse isso impossível. Deixou-a dormir em paz e caminhou até a varanda, onde permaneceu comendo e observando a cidade do alto do décimo oitavo andar.

 

Ouviu um grito horripilante de mulher, vindo do apartamento à sua direita que lhe fez gelar a espinha. Em seguida ouviu seis ou sete pancadas secas sequenciais. Parou de mastigar imediatamente e se debruçou, tentando espiar a varanda ao lado. Uma parede alta dividia as sacadas, de modo que seria muito difícil ver alguma coisa. Eram apenas dois apartamentos por andar. Foi trazido de volta à realidade quando esbarrou com o cotovelo e seu copo de Pepsi foi parar no jardim, 18 andares abaixo. Engoliu o “bolo” de pão que estava em sua boca e, em silêncio, tentava captar algum novo ruído. Olhou para as varandas abaixo, torcendo para que mais alguém tivesse ouvido alguma coisa. Nem sinal de vida.

 

Ligou para a portaria a fim de saber se alguém havia relatado algo incomum, contudo ninguém atendeu a chamada. Decidiu dar uma olhada rápida no corredor do andar para verificar se, por acaso, alguém havia deixado o outro apartamento. O silêncio do lado de fora era sepulcral. Caminhou até a porta dos vizinhos e encostou o ouvido a fim de tentar esclarecer o que ocorrera, mas não ouviu nada. Não convencido de que deveria tentar um contato direto, resolveu não tocar a campainha, voltando para sua residência. De volta à varanda, se esticou o máximo que pode, ficando debruçado e na ponta dos pés. Conseguiu ver através da porta de vidro, que dividia a sala e a sacada do apartamento vizinho… e notou um sofá tombado lá dentro, à meia luz, sem nenhum movimento de pessoas. ‘Seria alguma briga entre o casal?’ – pensou ele. Em seguida viu um pequeno vulto atravessando a sala de estar e agachando-se atrás do sofá tombado, ficando de costas para a varanda. Agarrou-se à parede divisória e puxou o corpo mais para fora, tirando os pés do chão para observar melhor. A luz da varanda do vizinho estava apagada e apenas um pequeno abajur, agora podia ver, clareava o local. Pensou em chamar, mas resolveu observar por mais tempo para descobrir o que se passava. Obviamente ela estava se escondendo de alguém. Talvez do pai enraivecido, talvez da mãe que… O que viu em seguida lhe fez engolir em seco.

 

Enquanto fazia sua barba, mais cedo, ouvira de relance, sem dar a devida importância, a respeito do assassino que havia vitimado um casal no dia anterior. E isso lhe veio à mente neste momento como um raio caindo sobre a cabeça. Viu um homem magro, de estatura mediana, barbudo, passando pelo corredor do apartamento do vizinho. Contudo ele não notou a criança, que continuava encolhida atrás do estofado. Pensou em chamar a polícia, mas quanto tempo demoraria até que chegassem? E se gritasse por ajuda e aquele homem o ouvisse e “terminasse o serviço”? Sem se dar ao luxo de pensar muito, pegou uma pequena mesa que estava em sua varanda e a colocou junto à parede divisória, possibilitando que pulasse para o outro lado, onde havia um pequeno jardim gramado que facilitou muito a travessia.

 

Enquanto caminhava agachado rente à parede, em direção à entrada da sala, foi notado pela criança e fez sinal pedindo silêncio, sendo logo compreendido pela pequenina. A porta de vidro estava destrancada, e Miguel, agachado, a abriu sem tirar os olhos da passagem do corredor. A alcançou e pensou em levá-la consigo, mas logo viu que seria muito arriscado tentar passa-la pelo muro da sacada. Teria de dar um jeito na situação ele mesmo; naquele instante. Falou em voz baixa ao pé do ouvido e ordenou que não saísse dali em hipótese alguma. Seguiu pela sala e segurou uma estatueta de metal. Olhou com cuidado no corredor e percebeu que a luz de um dos quartos, à esquerda, estava acesa. Seguiu na ponta dos pés, evitando que qualquer barulho denunciasse sua presença. Com a estatueta em riste, se valendo do fator surpresa, deu uma espiada. Mas não estava preparado para o que vira. À sua frente, na entrada da cozinha, um homem gordo estava caído de bruços em uma poça de sangue. No chão do quarto, uma mulher loura estava de barriga para cima com muitos ferimentos na parte posterior da cabeça. Miguel voltou, passando pelo homem gordo, e adentrou a cozinha, onde um faqueiro repousava sobre o tampo de mármore. Pegou uma das facas, mas notou que faltava outra. O intruso deveria estar em algum lugar nos outros quartos, ou banheiro. Pensou em pegar a menina e sair pela porta da frente. Não buscava o enfrentamento. Voltou à sala e viu o rostinho assustado, se projetando por detrás do sofá. Ao aproximar-se notou seus pequeninos olhos se arregalando, olhando para algo que estava para além de si mesmo, na direção da porta do corredor. Ao tentar se virar, foi atingido bruscamente nas costas. Caíram ambos ao solo e Miguel bateu a cabeça com força no chão. A criança gritou e correu através da sala, onde foi atingida por um forte chute do mendigo, batendo na parede e caindo inconsciente. Os dois rolaram sala afora e o mendigo levava vantagem, pois a faca de Miguel havia ficado caída fora de alcance. Entre tentativas de fuga e tombos, agora estavam na varanda. Lutavam com todas as suas forças, pois sabiam que dificilmente duas pessoas sairiam vivas desse embate.

 

A faca restante caiu. Os dois se esgueiravam e lutavam para ver quem a pegaria primeiro. Dedos nos olhos, socos no nariz, mordidas… Miguel se aproxima mais um pouco e, num esforço final, chuta o rosto do mendigo e apodera-se da arma, deitando as costas no chão, pois o ensandecido assassino saltara por cima, tentando tomar-lhe a lâmina a qualquer custo. Em um movimento rápido, Miguel desloca o peso do homem para o lado, uma vez que ambos praticamente já dividiam o cabo da faca, e ela é enterrada no peito do “intruso”, que não tem fôlego para gritar de dor. Um jorro de sangue quente flui de seu tórax e ele tomba com os olhos e boca abertos.

 

Sentado no chão da varanda tocou seu rosto, que doía muito. Seu nariz sangrava. Sentia o gosto acre do sangue na língua. Caminhou até a sala, observou a menina, e viu que ela respirava; mas não conseguia raciocinar direito e decidir o que fazer. Cogitou ligar para o serviço de emergência, mas estava exaurido demais para isso. Seguiu em frente e destrancou a porta que dava acesso ao corredor do andar. Nem sinal de alma viva. A porta do apartamento ao lado estava destrancada. É impressionante como pequenas coisas nos trazem tanta alegria em momentos de grande dificuldade – pensou.

 

Tudo estava como antes: arrumado e em silêncio. Aquele homem ferido, cansado e mentalmente confuso era um contraste bizarro no meio daquela sala silenciosa. Abriu com cuidado a porta do quarto e Gabriela continuava dormindo. Desligou a TV, sentiu alívio pelo ar-condicionado e deitou-se do jeito em que estava: sujo de sangue, ferido, combalido. Puxou o lençol sobre si, virou-se para o lado e a abraçou por trás. Ela se aconchegou no corpo dele e somente arregalou os olhos aterrorizados quando sentiu a barba espessa e suja em sua nuca.

 

 

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