Arthur

Arthur

“Após a queda de uma arma biológica em Nova York, o mundo que conhecemos mergulhou em um processo de degradação irreversível.
Diante de uma guerra iminente, uma doença surge. Os efeitos? Se resumem em dor, morbidades, escuridão e vazio. As Consequências? Caos, perda completa de vestígios humanos. Aos sobreviventes só resta lutar por suas vidas e manter a sanidade diante dessa nova realidade. Alguns conseguem. Outros falham. Todos tem uma história para contar.”

Essa costumava ser minha cidade. Sim, minha cidade. Olha, quando se esteve há 30 anos na polícia trabalhando como detetive, você acaba se apropriando de algumas coisas. Uns se apropriam de drogas e revendem, outros se apropriam de armas e as alugam para traficantes, mas eu me apropriei da cidade. Achei mais seguro, apesar de não haver terreno seguro em uma cidade como essa. Muitos gostam de ver a Times Square com todo o seu glamour, outros gostam de ver o Madison Square Garden, palco dos maiores shows da história da humanidade, outros amam passear pelo Central Park, mas essa é uma Nova Iorque que eu nunca conheci. A cidade que conheci fedia a merda. Durante o dia, os almofadinhas de Wall Street saem de suas milionárias tocas e fazem o que sabem de melhor: sugar o máximo de uma estrutura falida para satisfazer seus caprichos. À noite as coisas eram um pouco diferentes. Eu lidava com a escória. Putas, cafetões, traficantes, drogados, ladrões, estupradores e todos os tipos de vermes que uma cidade como essa poderia produzir, mostravam suas verdadeiras garras à noite. Eu vi sangue escorrer pelas ruas em direção a bueiros. Sangue de infelizes que nunca tiveram onde cair vivos, quanto mais quando morressem. Sangue de inocentes. Sangue de culpados. Quando se está estirado com a cabeça esmagada e o sangue lavando a rua, não há mais culpados ou inocentes, apenas cadáveres. Não creio que eu tenha sido algum tipo de santo, mas eu era o que essas ruas precisavam, não o que elas mereciam. Elas mereciam algo muito pior do que eu.

O trabalho de detetive não era uma tarefa muito fácil. Você deveria ter contatos em todos os lugares e pelo menos tentar manter sua sanidade enquanto lidava com loucos de todo tipo. Certa vez, cheguei a uma cena de crime, acompanhado por meu chiclete de nicotina, pois era a oitava vez que eu tentava parar de fumar, onde um pai bêbado matara sua esposa e os sete filhos à marteladas. O estúpido realizou o trabalho, viu a merda que fez e tentou de matar com uma martelada na cabeça. Obviamente desmaiou com a primeira pancada. Os vizinhos ligaram para nós e os rapazes chegaram bem rápido. Quando cheguei, encontrei a família espalhada pela casa. Havia marcas de sangue até no teto. A esposa e dois filhos estavam na sala com seus crânios afundados. Outros dois estavam no quarto da mesma forma e outros três foram encurralados no banheiro. O idiota estava recebendo atendimento médico quando olhei em seus olhos e vi a decadência de um farrapo humano. O apartamento fedia a álcool, merda e morte, tudo junto. Não sei se estava arrependido ou coisa parecida e também não me dei ao trabalho de perguntar coisa alguma para aquele desgraçado. Ele por sua vez, estava tão chapado que mal conseguia andar, mas no fim de tudo ele teria que andar para, pelo menos, descer as escadas e entrar na viatura. Possivelmente ele passará o resto da vida apodrecendo na cadeia, onde será currado por uma ala inteira de detentos que não toleram uma merda como essa. No fim de tudo, eu cuspi o chiclete fora, acendi um cigarro e frustrei minha oitava tentativa de parar de fumar. Um a mais ou um a menos, foda-se.

Outro dia bem difícil foi quando me aposentei. Na hora tudo é imensamente lindo: todos batem palmas e discursam de forma emocionada, até aqueles que tentaram te foder acabam falando um monte de merda que fazem um sentido enorme naquele momento. O problema mesmo é no dia seguinte quando você tateia embaixo do travesseiro e a sua pistola não está mais lá. Sim, aquela pistola que te acompanhou por tanto tempo e que você dormia com ela sob sua cabeça por acreditar que ela pode te proteger de algum jeito, não está mais lá. Sua esposa lhe acorda com um café na cama e você até tenta fazer parte daquilo, mas a verdade é que você não pertence mais àquele mundo. Você foi abduzido por um mundo infernalmente decadente e só restou uma máscara, a qual eu vestia sempre que ia para casa e agora tinha que vesti-la o tempo todo. Isso era realmente uma merda. Comprei uma arma no dia seguinte para tentar me apegar a algo que me desse um pouco mais de segurança. Mas as coisas pioraram. E pra caralho.

Uma semana depois atacaram minha cidade e eu nada pude fazer, já que haviam me roubado dela. Tentei falar com alguns amigos, mas as informações estavam tão desencontradas que eu resolvi simplesmente investigar por mim mesmo e o que descobri não me ajudava muito. As pessoas foram entrando em uma espécie de surto psicótico e iam atacando umas às outras. O exército tentou lidar com eles, mas o que eles faziam era algo paliativo, afinal não se atira em uma multidão e se derruba todo mundo. Suas balas acabam. A fúria deles não.

Eu resolvi me trancar em casa. Fui um cretino covarde. Fui sim. Mas o que eu podia fazer afinal? As ruas estavam infestadas desses cretinos loucos e o exército não conseguia lidar com eles. Não seria eu que salvaria a porra do dia! Não me julgue! Você no meu lugar faria a mesma coisa ou até pior!

Dia após dia a cidade foi apodrecendo. Eles tiveram a ideia ridícula de amontoar um monte de gente diferente no mesmo lugar. Não tinha como dar certo nunca. É como tentar misturar água e óleo. Enquanto alguns possuíam privilégios, outros passavam fome dentro dessas zonas seguras. Histórias de violentos estupros estavam nos noticiários. O final disso tudo? Aqueles retardados se tornaram mais perigosos que os cretinos violentos do lado de fora. As zonas se desfizeram como em um sopro e por fim explodiram todas as saídas da ilha e jogaram um portão enorme na saída que sobrou. Estamos sitiados. Eles nos foderam mesmo!

Eu agora observo pela janela minha cidade. Minha. Estou sentado com a nova arma na mão. Não é tão confortável quanto minha antiga companheira, mas ela resolveu muito bem meu problema. Minha família? Meu filho mais velho morreu quando estourou a violência daqueles que a imprensa chamou de doentes. Aqueles merdas sempre defendendo a porra dos assassinos! Minha esposa e meu filho caçula estão com uma bala na cabeça e algumas no corpo. Eles de alguma forma aderiram à loucura daqueles filhos da puta lá embaixo. Isso já faz algum tempo. Agora estou aqui olhando o que sobrou da minha cidade. Ela está do jeito que a conheci. A diferença é que ela agora me tem, mas eu não a tenho mais.

Coloquei a arma na boca umas duas vezes e no ouvido umas quatro. Não consegui puxar o gatilho ainda. Minha comida acabou há três dias e a água que me resta é dois dedos de uma garrafa. A porta que ficou trancada todo esse tempo está aberta agora, assim como a porta do prédio. Eu os aguardo. Me resta apenas uma bala, mas eu ainda os aguardo. Eles vão me dar um motivo de verdade para puxar esse gatilho. Um bom motivo para fazer o que eu não tive coragem até agora. É bem melhor do que me tornar um deles.

Ouço passos atrás de mim.

Será que são eles?

Um grunhido. Mais outro. Outro.

Eles estão vindo.

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