giacomo-human-being

Giacomo Ferreti

“Após a queda de uma arma biológica em Nova York, o mundo que conhecemos mergulhou em um processo de degradação irreversível.
Diante de uma guerra iminente, uma doença surge. Os efeitos? Se resumem em dor, morbidades, escuridão e vazio. As Consequências? Caos, perda completa de vestígios humanos. Aos sobreviventes só resta lutar por suas vidas e manter a sanidade diante dessa nova realidade. Alguns conseguem. Outros falham. Todos tem uma história para contar.”

Giacomo olha pela janela a rua escura e deserta, que segue em direção ao centro da cidade. Já havia perdido as esperanças à algumas semanas, agora ele só pensava em duas coisas, como conseguir sair dali e para onde ir se conseguisse.

No início da guerra, após ver as explicações do Governo na televisão sobre os motivos de manter as pessoas em suas casas ao invés de realizar uma evacuação em massa, mesmo com as ameaças de uma guerra nuclear, e depois receber de um grupo de paramilitares algumas caixas grandes contendo alimentos enlatados e medicamentos, ele ficou em seu apartamento no quinto andar com a esposa, sua Beretta 471 Silver Hawk, sua adega de grappas e a promessa das autoridades que o fim da guerra traria novamente a normalidade para sua vida.

Após dois anos e meio, nenhuma bomba atingiu a cidade onde morava, porém, se ele pudesse escolher, provavelmente iria preferir sofrer as consequências de uma Napalm do que estar vivendo aquele inferno.

Tendo passado o primeiro mês depois da mensagem televisiva do Governo, toda a energia do seu bairro foi cortada e começaram os primeiros casos de violência extrema.

Aquela janela servira de observatório para as piores atrocidades que ele jamais imaginára presenciar em sua vida.

As imagens estavam tão vivas em sua memória como se estivessem acabado de acontecer.

Um dos piores episódios ocorreu como que por acaso. “Pobre moça, aquele rapaz parecia um nazista…”

Poucas pessoas tentaram viver suas vidas como se nada de anormal estivesse acontecendo. Ele estava sentado em uma poltrona Berger Capitonê marrom antiga em sua sala, que adicionava um toque clássico ao ambiente. Reparou em uma mulher de short e blusa azul que subia a rua lentamente até sumir de sua vista. Momentos depois, a mesma moça volta na direção oposta, correndo demonstrando desespero, como se a vida dela dependesse de sua velocidade, e infelizmente dependia. Um homem loiro, forte, vestindo calça jeans e uma camisa preta, corre mais rápido que a mulher e, com um soco swing, a acerta pelas costas na altura da nuca, o que a faz cair e bater o rosto contra o chão. Giacomo fica perplexo com aquela cena. O homem se agacha, segura a cabeça da mulher pelos cabelos com as duas mãos e a choca contra o asfalto uma quantidade absurda de vezes até o rosto dela virar uma pasta vermelha completamente desfigurada. Giacomo está atônito, não consegue mover um músculo, não consegue dizer uma única palavra. O homem por vez, se levanta e olha na direção da janela de Giacomo. Neste instante, seu corpo congela pelo medo de ter sido visto, porém nenhuma atitude do homem pode lhe dar alguma certeza. O homem ainda chuta e pisoteia o corpo moribundo estirado sob uma enorme poça de sangue no meio da rua, antes de olhar para a continuação da rua e correr na direção de algo que estava fora do campo de visão do italiano.

Giacomo está em choque. Aquele cara havia matado a sangue frio, com as próprias mãos e com excesso de fúria uma mulher, sem nenhum motivo aparente. Não disse nada nem roubou coisa alguma.

Um susto o tira do transe e de suas memórias. Olha para o portal que leva para a cozinha, quase certo de ter visto alguém ali. A imagem de sua Annabela, com as mãos na cintura e que, com um sorriso no rosto que o fazia se sentir um bobo, lhe dizia para não se preocupar tanto e que tudo aquilo iria acabar bem. Ela era uma mulher forte e espirituosa. Se apegava bastante a sua fé professa católica e era devota de Santa Catarina de Siena, co-padroeira da Europa.

Uma lágrima escorre de seu olho e sua lembrança se dilui em um sentimento raivoso:

< – Estúpido! > – Ele soca com força o braço da velha poltrona, enquanto se culpa miseravelmente mais uma vez. Ele entorna o resto da grappa que jazia no fundo da garrafa, respira fundo e, levantando com convicção, coloca uma pesada mochila nas costas, pendura seu rifle no ombro esquerdo e se dirige à porta de saída do apartamento rumo ao desconhecido.

(continua…)

Post navigation

1 comment for “Giacomo Ferreti

  1. 24/10/2016 at 12:38

    Gostei muito. Dá vontade de conhecer o restante da história… Ou quem sabe o início dela (por que não?)
    Absolutamente crível e muito visual.
    Parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *