kuramada

Kuramada

“Após a queda de uma arma biológica em Nova York, o mundo que conhecemos mergulhou em um processo de degradação irreversível. Diante de uma guerra iminente, uma doença surge. Os efeitos? Se resumem em dor, morbidades, escuridão e vazio. As Consequências? Caos e perda completa de vestígios humanos. Aos sobreviventes só resta lutar por suas vidas e manter a sanidade diante dessa nova realidade. Alguns conseguem. Outros falham. Todos tem uma história para contar.”

Ele se chama Kenji Kuramada. Ele era meu irmão e se você está lendo isso saiba eu estou pronta, apesar da minha pouca idade. Sim, eu estou pronta! Estou trancada em seu quarto, como você deve ter visto, ele com essa faca em punho, como você também deve ter visto e provavelmente estará estirado na cama com sangue por todo o cômodo, inclusive na janela. Ele diz que está sendo observado de perto por eles. Eu não vejo e não ouço ninguém, mas ele afirma que eles estão perto. Isso está me deixando com medo. Nem o antigo Kanji escrito “Zen” em cima da escrivaninha, o qual ele olhou de forma fixa e doentia por algumas horas antes de ameaçar passar a faca na garganta, o fará retroceder. Palavras dele. Papai, antes de sair, nos disse para não sermos covardes. Ele segurou a cabeça de Kenji, olhou em seus olhos e disse isso. Se você está lendo isso saiba que ele foi covarde e não há honra para uma pessoa como ele. Ele não merece nem sonhar com nenhum dos céus de Samsara, já que não há nenhum carma positivo gerado por ele. Mamãe me ensinou essas coisas. Ele não merece a dádiva que Buda tão compassivamente nos ensina: o renascimento. A nova chance. Ele não merece renascer, nem que seja como uma mosca, cuja vida é curta, ou uma barata, que é pisada pelos homens e vive à margem de tudo, comendo restos e sobras. Eu o amava. Agora, o odeio. Estou morrendo por causa dele. O que ele merece mesmo é o Reino dos infernos, um tormento maior do que esse que vejo pela janela e espero que sua estadia lá seja mais longa possível e esse carma adquirido com essa covardia o faça ter mais uma chance nesse mundo que parece um aborto mal feito. Que chegando lá esses gemidos e lamentações que ele diz ouvir constantemente finalmente não parem. Que haja muitos deles lá! Em contrapartida, eu não desejo essa chance, já que o que estou vivendo aqui é pior que o inferno jamais será. Eu estou presa aqui por causa dele e também por causa deles. Eles nos forçaram a ficar aqui. Eles estão por todos os lugares e nos ouvem, segundo Kenji. Por isso estou escrevendo. Vou lhe contar um pouco da nossa história, seja lá quem você é.

Cresci aqui em Kyoto. Não que você se importe. Poderia discorrer aqui sobre a condição financeira razoável da minha família, sobre meus amigos da escola e sobre minha paixão por J-Pop, mas não quero fazer você perder muito do seu tempo, sinceramente. Eles estão por todos os lados e são muitos. Eu estou ouvindo o gemido deles agora. Caminham, gemem e se lamentam a noite inteira. Agora isso também permanece o dia todo. Já não aguento. Kenji enlouqueceu de vez.

Desde que minha mãe se foi, sinto um vazio enorme. Só que Kenji está pior. Muito pior. Agora mesmo ele está suando e treme compulsivamente. Não me lembro como foi, só tenho pequenos flashes dos acontecimentos, já que eu era muito pequena. Lembro-me que foi em um sábado. Me lembro também que a rua estava movimentada. Me lembro que estávamos atravessando a rua em frente ao Kyoto Tower Hotel. Me lembro ainda que eu chorava e pedia por socorro, mas ninguém se mexeu para tal. Vi flashes. Fotografias. Gritei com lágrimas nos olhos. Kenji gritava com ódio. Gritei como se nada mais me importasse, como realmente não importava, na tentativa frustrada de trazer ela de volta.

É tudo de que me lembro.

Meu pai me ajudou muito. Lutamos juntos para superar essa perda. Mas algo aconteceu com Kenji. Não sei explicar muito. Ele simplesmente não consegue sair de casa. Diz que podem estar o observando para lhe atropelar e logo depois fotografar. Sim, sei o que você deve estar pensando e ao contrário disso, ele não é louco. Procuramos ajuda para ele. Ouvimos coisas como “síndrome do pânico”, “agorafobia” e até “fobia social” de alguns médicos. Não importa o rótulo. “Não quero ver ninguém e não vou sair daqui”, dizia ele. Ele repete algo assustador há dois dias: “Eles estão lá fora em algum lugar, no meio daquelesDaqueles monstros só me esperando”. Ainda mais sem seu remédio.

Apesar de estar sem pisar na rua há cinco anos, ele fazia questão de contar o tempo, mesmo sem ligar a televisão, atender telefonemas e até mesmo acessar a internet. “Eles poderiam estar me observando por qualquer lugar”, dizia o tempo todo.

No decorrer do segundo ano de reclusão, decidi que iria dar tudo de mim e ajudar meu irmão mais velho a lutar contra si mesmo. Consegui fazê-lo andar pela casa mais tranquilamente e nos ajudar nas tarefas. Nossa relação com o pai melhorou muito. Os remédios, que havia começado naquele ano, estavam fazendo efeito. E bem. Respeitamos seu limite e ele nos ajudou no que podia. Nosso pai saía para comprar tudo. Nunca foi fácil. No primeiro dia Kenji se escondeu no banheiro. Depois fui acalmando ele e nos escondíamos no seu quarto. Aquele de fato foi um bom ano. Senti uma leve evolução. Até a catástrofe.

Eu não sei de muita coisa, mas sei que algo grande aconteceu. Papai dizia que não era nada, mas andava constantemente angustiado. Eu conseguia reparar. Acompanhei muita coisa da janela de casa. Kenji ficava no canto do quarto suando e tremendo. Poucas vezes consegui acalmá-lo. Muitas vezes ele reagia violentamente. Era assustador. Da janela vi tropas se movimentando, meu pai justificando algo sobre Kenji para um militar que veio trazer uma convocação de alistamento, aviões de reconhecimento chineses, militares desocupando casas para utilizá-las como posto avançado, chineses sendo arrastados pela rua e violência sem sentido. Nessa época dormíamos os três no quarto do meu irmão. Os tiros eram constantes durante a noite e visíveis durante o dia. Bombardeios. Granadas. Meu pai não me contava o que aconteceu e eu comecei a acreditar nele quando dizia: “é melhor você não saber.”.

Mas tudo isso acabou quando eles chegaram.

Uma multidão deles.

Incontável.

Esses não eram aqueles. Esses eram outros. Piores. Muito piores.

Não sei de onde ou como vieram. Sei que apenas vieram e eram muitos.

Vieram e devastaram tudo.

Foi infernal.

Os militares lutavam contra eles, mas a multidão os engoliu sem nenhum pudor ou até mesmo humanidade. Eles corriam pelas ruas, maltrapilhos e balbuciando palavras sem sentido, agredindo pessoas, invadindo casas e devastando violentamente tudo o que viam pela frente. Vi coisas das quais não ousaria que me retornassem à boca e me desculpe pelas gotas na carta. Voltei a chorar.

Em pouco tempo Kyoto se tornou uma terra de ninguém. Eles estavam por todos os lados. Militares, civis, todos haviam se tornado aqueles seres. Corpos pintavam a rua em sangue. Não eram humanos. Definitivamente não eram. Já foram, um dia, porém era um exagero dizer que havia algum resquício de humanidade ali.

Certo dia, um desses animais tentou entrar aqui em casa. Meu pai o esfaqueou ferozmente. Kenji viu tudo. Queimamos o corpo nos fundos de casa. A partir desse dia ele não saiu mais do quarto. Trouxe uma faca para se defender deles. Meu pai foi contra a ideia, mas Kenji a trouxe mesmo assim. Com o tempo também, tudo o que nos supria foi acabando. Primeiro foi a luz e depois a comida. Passamos 3 dias famintos, com um pouco só de água e lamentando, até que meu pai resolveu sair e procurar mantimentos. Kenji se desesperou e disse que ele não voltaria. Falou também que eles o pegariam. Sua voz era perturbadora. Sua atitude desesperada.

Mas ele se foi. Teve que ir.

Isso já faz 4 dias.

Não vou sair daqui. Kenji trancou a porta e jogou a chave pela janela. Estou faminta, sim, meu estômago dói muito e meu estoque de água acabou a 8 horas. Comi papel para tentar amenizar a fome, mas ele também acabou. Tenho apenas esse que usei para escrever. Tentei abrir a porta, mas nem chegar perto dela ele deixa. Começa a suar, protestar e suas mãos começam a tremer, como se tivesse Parkinson. Meu coração disparou na segunda vez que tentei. Ele me ameaçou com a faca. Foi angustiante. Pensei que fosse enfartar. Por fim chorei copiosamente. Me desesperei. Ele mandou que eu não gritasse porque “sabe que eles nos ouvem”. Acho que estou começando a acreditar nisso. “Estão só esperando que a gente abra a porta para nos matar”, diz ele o tempo todo. “Tenho certeza que eles estão aqui na parte de baixo da casa”, disse por fim. Me sinto um nada. Ele não consegue vencer esse medo infernal, mesmo diante da ameaça de morrer por inanição.

Agora estou aqui, sentada nessa cadeira, terminando essa carta. Se você está lendo isso, saiba que eu desisti. Não tenho mais como lutar. Eles nos venceram.

Hikari

O militar dobra o pedaço de papel e o guarda no bolso. O corpo do rapaz está sobre a cama, como anunciado na carta. Olha à volta e observa que o quarto está em ordem, assim como a casa, que estava trancada por dentro. Ele guarda sua arma, uma pistola 9mm, e vai em direção à cadeira. Observa a janela e tem a mesma visão que a jovem teve: uma Kyoto inteiramente despedaçada. Ele, por fim, levanta o corpo da jovem, o põe na cama, senta na cadeira, ao lado da escrivaninha, e observa as pegadas de sangue que deixou no aposento. Esse sangue não era do rapaz. Nem da jovem.

O militar coloca duas sacolas de compra na escrivaninha, debruça o cotovelo em uma das pernas, coloca a outra mão no ouvido e aciona o rádio.

– Tenente Kyle?

– Tenente Kyle falando!

– Aqui é Foxtrot 1. Achei suprimentos.

– Ótimo Foxtrot 1! Estamos famintos. Achou alguém por aí? Algum sobrevivente?

– Senhor… – O militar hesita. – Não. Achei um senhor aparentando uns 70 anos que estava morto com uma espada em mãos. Ele cortou sua barriga de ponta a ponta, exibindo suas vísceras pela cozinha… – Sua voz é vacilante e nauseada.

Tenente John Kyle faz uma breve pausa antes de responder.

– Seppuku. A forma mais honrada de morte para os samurais. Era uma honra morrer desse jeito. Costume antigo. Coisa dos japoneses. Vai entender… – Informa Kyle. – Mais alguma pessoa por aí.

O militar olha para a cama, encara Kenji e Hikari.

– Há também um jovem em cima de uma cama. Está em decomposição. Ele tem uma faca na mão e não exibe nenhum ferimento. Aparentemente morreu de inanição e não conseguiu se matar. Um pobre coitado. No quarto também á uma jovem de no máximo 12 anos. Não consigo ser preciso quanto à idade. Morreu da mesma forma. Ambos estavam trancados no quarto. – Há piedade em sua voz.

Há silêncio do outro lado do rádio. Pode-se ouvir claramente a respiração de Kyle.

– Certo. Volte à base soldado. Há outros Rangers chegando. Aqui conversaremos melhor.

– Sim senhor. Desligando.

O militar recolhe as duas sacolas, com alimentos enlatados, do velho pai de Kenji e vai em direção à porta. Antes de sair dá mais uma olhada na cena em que o rapaz se encontrava. Seus olhos estão marejados. Suspira. Subitamente ele fala:

– Eu te entendo garota… Eu te entendo.

A mão do soldado treme levemente.

***

“Sempre acreditem em suas histórias. Se você acreditar, os leitores também acreditarão!” (Will Soares)

Até a próxima!

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