LEGADO DE SANGUE – DAVE SIMONS

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— Faça parar! Faça parar! Não quero mais essa dor!

Esse é o lamento perpétuo de Dave Simons. Confinado em um corpo que vive uma agonia constante, ele vaga há um ano sem rumo pelas ruas de uma caída e esquecida Nova Iorque. Seus passos vacilantes se arrastam pelas molhadas avenidas e o murmúrio em seus lábios se junta à melodia quase infernal de incontáveis pessoas.

Mas nem sempre foi assim.

Dave Simons era um respeitado contador em Nova Iorque. Seu escritório de contabilidade ocupava dois andares do imponente 40 Wall Street, um dos arranha céus mais altos e belos do mundo. Dave possuía um enorme talento e os negócios iam crescendo muito rápido. Oitenta por cento dos grandes investidores de Wall Street eram seus clientes, sem contar as pessoas que vinham de todas as partes do país. Em apenas três anos, quando deixou o ramo imobiliário e decidiu rumar para o mercado contábil, sua fortuna somava alguns milhões de dólares. Era implacável nos negócios e com os funcionários, a ponto de demiti-los no meio de reuniões. Porém sua política salarial aplacava qualquer ira vindoura.

Dave sempre possuíra alguns truques na manga, o que sempre atraía novos clientes. Manipulação, falsificação ou alteração de livros contábeis ou documentos, modificando os registros de ativos, passivos e resultados, registro de transações sem comprovação, sonegação de impostos, tudo sem rastros ou provas auditáveis, faziam de Dave o contador mais respeitado de Manhatan. Menos para sua família. Dave tinha um casal de filhos e uma bela esposa, porém a felicidade não frequentava constantemente a casa dos Simons. Dave era imensamente infeliz em seu casamento e vivia de aparências. Não suportava seus filhos, por considera-los idiotas e mimados demais e não aguentava sua esposa, por considera-la fútil demais. A única pessoa com que tinha algum afeto era Andressa, sua secretária com quem mantinha um caso extraconjugal há quatro anos. Ela era uma bela latina de corpo voluptuoso e belas curvas. O sexo entre os dois era sempre quente e selvagem. Isso mantinha, de certa forma, a sanidade de Dave.

Até o dia da bomba.

Uma bomba caiu em Manhatan, porém, diferente de outras bombas, as pessoas apenas desmaiaram. Uma nuvem amarelada cobriu uma parte da cidade naquele dia, mas ele simplesmente ignorou os alertas e manteve sua equipe trabalhando normalmente. Naquele dia, a bolsa de valores despencou agressivamente, fazendo empresas perderem milhões. Nada que Dave não pudesse resolver com o um pouco mais de tempo.

O medo se instaurou na cidade por dias, mesmo depois do comunicado do prefeito de que a situação estava sob controle. Ainda não acreditavam nisso. Não depois do World Trade Center.

Duas semanas após a bomba, surge uma epidemia de gripe, o que colocou todos em alerta. Consultórios e farmácias ficaram cheios, causando uma grande comoção na cidade. Dave demorou um pouco a ficar enfermo, mas acabou contraindo a doença. Ficara mais irritado do que o normal, pois estava com uma dor de cabeça leve, porém constante.

Nos noticiários, especialistas se dividiam dizendo que esse surto era normal e outro grupo dizia que era um ataque biológico e que aquilo não era gripe, apesar dos sintomas. O governo, aparentemente, nada fez. Com o passar dos dias, a cidade foi enlouquecendo. Um surto de violência se instaurando. Pessoas se desentendiam por motivos banais e sua fúria era exposta gradualmente. A polícia teve muito trabalho para conter a população. Dave deu férias coletivas a seus funcionários e permaneceu confinado por duas semanas em sua cobertura de cinco milhões de dólares, encurralado pelo falatório excessivo de sua esposa e pelo jeito grudento de seus filhos.

Até que a cidade colapsou.

Dave acorda com sua cabeça doendo imensamente. Liga a televisão e vê no noticiário matutino uma notícia que o deixaria chocado: Confrontos diretos entre a guarda nacional e pessoas furiosas nas ruas. Saques são registrados. Tiros são disparados para tentar aplacar a multidão. As mortes já passam da casa das centenas de pessoas. A recomendação é que se aguarde um resgate.

As semanas em casa são excruciantes. Sua esposa só fala de futilidades, seus filhos tentam agradá-lo de todas as formas e sua cabeça dói mais a cada minuto. Se olha no espelho e seus olhos estão vermelhos e lacrimejantes. As notícias eram piores a cada momento. Toma um susto quando o plantão da CNN faz um anúncio estarrecedor:

— O plantão CNN informa que o governo criou zonas seguras e todos os habitantes de Manhatan devem se deslocar para lá! Repito, o governo federal criou zonas seguras e todos os habitantes de Manhatan devem se deslocar para lá! Tenho em minhas mãos a lista de onde ficam as zonas seguras…

Dave congelou. A zona segura mais próxima era a três quilômetros dali. Estava trancado em sua cobertura, falido, sobre as cinzas de uma cidade que definhava rapidamente. Olhando pela janela, pode ver o caos que se tornara Manhatan em tão pouco tempo. Decide que, mesmo com sua dor de cabeça alucinante, precisa sair dali.

— Dave? O que vamos fazer? — Pergunta sua aflita esposa.

A visão de Dave se turva ao olhar para a ela. Os sons à sua volta se tornam ensurdecedores e confusos. Ele a ignora, como sempre costuma fazer. Segue cambaleante para o closet e escolhe seu melhor terno. Veste seus caríssimos sapatos e sai olhando para sua família.

— Pre… Precis… Precisamos ir… — Tenta falar Dave, em meio às dores de cabeça e visão turva.

Sua esposa entende e começa a arrumar a si e as crianças. A menina tem três anos e o menino seis, mas apesar disso, eram bem independentes para a idade.

Dave está chegando no seu limite quanto à dor. Ela não vem em ondas, ela simplesmente segue uma crescente, como se o cérebro estivesse sendo apertado por um torno, que é girado bem lentamente. A sanidade começa a escapar de forma acelerada. Ele quer ter sua dor cessada. Precisa acabar com ela e o barulho à sua volta não o ajuda. Qualquer barulho.

— Vamos Dave? — Pergunta sua esposa nervosa.

Dave olha para ela com ódio. Sua cabeça dói intensamente. A loucura se apodera de seu rosto.

— Dave?

Dave se levanta gritando e vai na direção da mulher. Ele a empurra violentamente. Ela bate com as costas na parede. Grita em agonia.

— Dave! Pare com isso! Por favor!

Ele pega a cabeça da esposa e bate contra a parede, com golpes violentíssimos, fazendo um barulho abafado a cada pancada.

Ela se cala e para de reagir.

Ele continua, até que a cabeça da esposa sangre e se deforme em suas mãos. O olho direito sai da órbita e pendura—se pelo rosto dela.

Dave só para quando se dá conta de algo: As crianças gritando.

Ele pega as duas crianças e as atira pela janela em um momento de fúria irracional. Seus gritos puderam ser ouvidos.

Dave para. Olha pela janela e contempla o momento em que seus filhos atingem o chão. Ele se vira e olha para sua esposa. Seu sangue escorre pelo carpete de trezentos mil dólares.

O horror se estampa em seu rosto. Sabe o que fez. Não conseguiu controlar sua loucura e não sabe por que reagiu assim. Não consegue chorar ou esboçar reação emocional alguma.

Então ele grita.

Os gritos pioram sua dor.

Então ele murmura e geme, seguindo na direção da porta, caminhando pelo corredor.

Desde então, Dave vaga por Nova Iorque. Sem rumo. Sem motivo para viver. Sem propósito e repetindo intensamente o mesmo lamento. Ele sabe que precisa pôr um fim nessa dor insuportável. Em meio ao som intenso de uma chuva torrencial e a pouca visibilidade de uma neblina, ele bate em alguns carros, liberando a raiva contida. Ele se ajoelha no chão e grita em agonia.

— Faça parar! Faça parar! Não quero mais essa dor! Ah!

Um som é ouvido em meio a seu lamento. Dave vai seguindo rapidamente a origem do som. Vozes falam coisas inaudíveis.

– Ajuda… – Murmura em sua busca desesperada.

Junto ao meio-fio Dave encontra um transmissor.

Tenta pegá-lo, mas suas mãos não o obedecem. O rádio cai no chão em todas as tentativas. Com raiva ele golpeia violentamente a calçada inúmeras vezes.

Há sangue em suas mãos. Seus dedos se dobram em ângulos impossíveis. A dor o atinge de forma brutal.

Dave rasteja com dificuldade, aperta o aparelho contra a calçada, com seu antebraço, se abaixa e sussurra.

– Aju… Ajud… – A dor atrapalha Dave. – Ajude…

Dave é interrompido.

Seu cérebro se espalha pela calçada e seu corpo sem vida pende pela rua. Uma 9mm fumegante se retrai.

– Olha o que você fez seu estúpido! Sujou o rádio todo!

– Foda-se. Pelo menos esse animal está morto!

Os homens observam o corpo sem vida de Dave, com seu terno surrado e imundo manchado de sangue. Talvez nem todas as manchas sejam de Dave.

– Será que esse homem já foi alguém um dia?

– Já. – responde o homem de forma direta e indiferente. – Assim como nós.

Silêncio. Os dois homens se olham, pegam o rádio e correm na direção de um dos prédios. Aquela seria sua última noite.

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