clara

Clara

A porta se abre devagar. João olha pela fresta e vê que Clara ainda dorme profundamente. Abre mais a porta e entra no quarto com um urso enorme, talvez do tamanho de sua pequena Clara. Ele repousa o urso em cima da mesa e observa o sono profundo da menina. Ao lado da cama há a foto dela, ainda neném com sua mãe.

– Você continua a cara da sua mãe. Nasceu a minha, mas algo aconteceu no caminho. – Comenta em tom alegre. – Melhor assim! Eu sou muito feio! – Conclui o pai, de forma sincera.

Ele passa a mão pelo rosto de Clara. Pequeninos vasos sanguíneos podem ser vistos sem muito esforço. Clara levou esse nome por conta do tom de pele. Ela deveria ser Clarissa, mas clara sempre lhe caiu muito bem. Ela nunca reclamou.

João observa a respiração da filha. O peito subindo e descendo lentamente. O rosto angelical sempre escondeu uma menina peralta. Relembra que no segundo aniversário da filha, a vestiu de anjo e ela tentou pular da varanda da casa até o gramado, logo no início da festa. O resultado? Muito choro, um braço quebrado e a festa acabando mais cedo.

Apesar de tudo sua filha era muito feliz. Mesmo perdendo sua mãe em um acidente de carro, o qual Clara sobreviveu milagrosamente, João tenta supri-la como pode. Não havia avós paternos e o avós maternos estavam fora do país. Desde 6 meses de idade sempre foram os dois. Nas primeiras palavras, na primeira noite sem a mãe, no primeiro engatinhar e até nos primeiros passos, sempre foram somente os dois. Nos últimos seis meses mais ainda.

Aquele deveria ser um quarto silencioso. Ouvem-se apenas dois sons: o medidor cardíaco que relata fracos batimentos e o soro gotejando. Um sorriso lhe escapa e uma lágrima lhe escorre ao rosto. Dá play em mais um vídeo. Aquele é o ultimo dia de Clara.

***

A mais ou menos um ano Clara foi diagnosticada com Leucemia. João perdeu totalmente o chão. Apenas abraçou sua filha e chorou. O pediatra o tentou confortar, porém o quadro não era animador. O tratamento deveria seguir normalmente, com quimioterapia e transfusões, só que Clara possuía o raro sangue O-, o qual só recebe doação de sangue igual ao seu. Não haviam muitas bolsas disponíveis e João fez o que podia. Os médicos deram apenas aquele para Clara. A doença já estava muito avançada.

O quadro da menina se agravou rapidamente. Cada seção era uma verdadeira tortura para Clara e João já havia emagrecido 38 quilos, devido ao esforço diário de levar seu pequenino anjo para o hospital. Até que o inevitável aconteceu: foi demitido depois de quase 20 anos de empresa. “Apenas corte de despesas, nada pessoal.”. Talvez fosse verdade. Nunca saberia.

Chegando em casa, Clara dormia em seu quarto. Já não frequentava mais a escola e ficava com uma babá, durante um período do dia. João abraça o corpo frágil da menina, que lhe retribui o abraço e lhe devolve um pequeno, preguiçoso e sincero sorriso.

– Eu te amo pai!

– Também te amo filha.

João suspira, tentando esconder a tristeza e a incerteza que a vida lhe trazia. Aquele foi um golpe duríssimo e não havia nada que pudesse fazer. Clara corta seus pensamentos quando lhe entrega um desenho. São apenas rabiscos, mas são os rabiscos mais magníficos já feitos.

– Olha filha, que bonito!

– É só um monte de rabisco pai! – Responde a pequenina de forma sincera. – O desenho está atrás!

Envergonhado, João vira o papel e vê o desenho de Clara. Um homem, feito com retas, estava sentado diante do que parece ser uma menina, também feita de bastões. Aparentemente eles brincam.

– O que é isso filha? Somos nós?

– Sim papai… Somos eu e o senhor brincando o dia inteiro… – Havia pesar em sua voz.

– É isso que você quer filha?

A menina balança a cabeça, olhando para baixo e esperando mais uma negativa do pai ao seu pedido diário. Ele dobra o papel e sorri para ela. Lembra-se da oração da menina no dia anterior:

Papai do céu, sei que está aí em algum lugar e que me ouve de alguma forma. Sei também que ama a gente, apesar disso estar em mim. Sei porque meu pai me falou. Sabe Papai do céu, eu tenho o melhor pai de todo o mundo. Eu sei que ele trabalha e se esforça para me levar no hospital todos os dias, mas queria ele mais aqui comigo. Por favor Papai do céu, trás ele aqui para ficar mais tempo comigo? amém!”

Lembrou-se das lágrimas que rolaram no dia anterior. Da simplicidade de coração e de que Deus ainda ouvia orações sinceras.

– Sabe filha, já que você quer tanto, vou passar mais tempo aqui com você.

Clara arregala os olhos. Não acredita que seja verdade.

– Verdade pai?

– Verdade Clara. Amanhã não vou trabalhar! Vamos sair e brincar juntos!

– Verdade pai?

– Sim filha! Verdade!

Clara dá um abraço apertado no pai.

– Obrigada pai! Obrigada!

Ali João entendeu que o importante não era procurar um emprego. Não era passar horas trabalhando, tentando esquecer a dura realidade que o assombrava. O importante era aproveitar o tempo que lhe restava com sua filha, vivendo intensamente cada minuto, como se fosse o último.

E assim foi.

***

Foram 6 meses fantásticos. Intensos. Bem aproveitados. Clara estava sempre junto de seu pai, que a levava para fazer de tudo. Andar de patins? Sim! Passar o dia todo no cinema vendo o mesmo filme? Sim! Dormir tarde e se entupir de pipoca até quase desmaiar? Sim! Ir ao zoológico? Sim! Passear de metrô? Sim! Comer fast food durante uma semana? Aí não, né…

O que espantava João era a simplicidade da filha. Pedia coisas simples e simplórias. Pediu para colher flores. Pediu para rever fotos da sua mãe. Pedia para ele contar histórias sobre ela. Pediu uma bíblia, apesar de mal saber ler. Pedia doces. Pedia abraços, pois nem todos os pedidos custavam dinheiro e esses eram os mais gostosos de se realizar.

Durante as primeiras noites João chorou e foi consolado por seu travesseiro. Até aceitar que a vida é inexorável, assim como o findar dela. Por isso cada minuto era precioso. Cada minuto era único e vivido intensamente.

Até que no ultimo mês Clara foi internada. Os médicos disseram que ela já estava em metástase. Nada adiantaria. Seu corpo ficava fraco a cada dia e João via isso. Mas, o que freia o amor? Uma doença? A morte? Se havia algo tão forte e implacável como a morte, era o amor de João. Fez do quarto do hospital o mais lindo quarto de menina já visto. Era o melhor que João podia fazer, já que a doença avançava rápido.

Na primeira semana Clara perdeu a fala. Ele sabia que não ouviria mais aquela voz doce. Por isso pegou vídeos que ele mesmo havia feito e os colocou no celular para Clara assistir. Ficavam o dia todo assistindo ao resumo dos 6 últimos meses. Clara sorria sempre. Os médicos diziam que ela deveria sentir dores, mas ela nunca reclamou. Melhor assim.

Na segunda semana, ela foi perdendo a coordenação motora. Não conseguia nem comer sozinha. João lhe dava comida na boca e os dois se divertiam com pequenos gestos. Ainda nessa semana foi o aniversário de Clara. As enfermeiras, os médicos e alguns amiguinhos foram convidados para comer bolo e salgados. Clara chorou nesse dia. A felicidade se tornou sólida. Não só sabia que era amada, mas sentia esse amor. No fim de tudo, pediu a seu pai um urso de pelúcia enorme. O mesmo que está com João agora.

Fazem duas semanas que Clara está em coma e passa um filme na cabeça de seu pai. Ele fez o que pode, mas não foi o suficiente. A vida é só uma passagem. Algo provisório que nos torna passageiros de uma viagem irregular, porém inexorável. A de Clara estava chegando ao fim.

O medidor cardíaco para de apitar e faz um som contínuo. João chama as enfermeiras, que entram correndo e tentam reanimar Clara. João se afasta e chora. Vê médicos entrando e fazendo massagem cardíaca e aplicando choques em sua clara. Ela não voltou.

O celular exibe o vídeo do ultimo dia em que saíram, antes de clara ser internada. Ela brinca no gramado da Quinta da Boa Vista. Clara, já muito debilitada pelo tratamento, corre na direção do pai e pula em seus braços. O celular cai de sua mão e com a lente para o gramado. Mesmo com a tela preta pode se ouvir sua voz, já fraca:

– Pai! Obrigado por tudo! Você é o melhor pai do mundo!

– Eu te amo filha!

– Eu te amo pai!

Amor. Foi o suficiente. Era o que ela precisava.

5 comments for “Clara

  1. 24/10/2016 at 12:31

    Se o trabalho de um escritor é tocar outras pessoas com sua obra, então você atingiu seu objetivo, nobre amigo. Clara é triste, tocante e chocante, no sentido de que nos faz pensar numa realidade a qual todos nós estamos expostos, em todo santo dia de vida sobre esta terra.
    Parabéns por ter me alcançado (espero não soar presunçoso kk)

  2. 23/08/2015 at 19:26

    Me agradeça primeiro então!!! rsrsrs
    Fico feliz que tenha gostado do conto!
    Abraços!

  3. 22/08/2015 at 12:08

    Ainda estou indecisa… Não sei se agradeço por momentos raros de emoção ou se o amaldiçoo por me fazer chorar muito e sei que a tristeza perdurará por dias. Porém, sobreviverei, e isso é divino. Lindo demais o conto, parabéns!

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