O Amor de um Pai

O Amor de um Pai

Certa feita, um homem muito rico, encontrou-se bem velho e solitário. Havia trabalhado durante toda a vida e acumulado bastante riqueza que lhe garantia um passar dos dias sem necessidades.

Aquela altura, o homem notou que todo o seu empenho no trabalho não lhe havia deixado espaço para se relacionar com ninguém. Ele estava rico, era verdade, com carros, casas… mas todas essas coisas eram inertes! Em sua imensa casa não se podia ouvir um único barulho que simboliza-se vida. Ele estava marcado pelas cicatrizes e sequelas de seus anos a finco e envolto em uma solidão mórbida que o penetrava até os ossos. Poderia arriscar em dizer que, em um cemitério temos mais alegria do que os dias que ele estava vivendo. Se é que podemos dizer que ele estivesse realmente vivendo. Afastado do seu dia-a-dia intenso e de sua correria para alcançar sabe-se lá o que, ele não conseguia vislumbrar nada além de um resto de existência amarga, vazia e sem muito sentido.

Até que, um dia, ele sonhou um sonho. E neste sonho, campos verdes eram preenchidos por crianças coloridas. Haviam crianças de toda sorte de cores e aos milhares! Ele também estava neste campo. No sonho, ele era um menino cuja cor era a cinza. Todas as crianças estavam muito felizes, menos ele. Até que apareceu um adulto, muito, muito alto. Com este adulto, veio um vento que trouxe uma série de sons e sentimentos. Este adulto, foi na direção dele e o pegou no colo. E tudo o mais que aconteceu naquele sonho lhe caiu como música aos ouvidos.

Ele acordou na manhã seguinte dizendo: “Vou adotar crianças. Darei mais que um lar à elas, darei um pai que elas nunca tiveram”. E escreveu uma carta, uma longa carta que espalhou por todos os orfanatos de sua cidade. Esta carta, contava um pouco de sua história e o porque desta sua atitude. Mas o mais importante era a pergunta que tinha no final da carta, que dizia: “Esta oportunidade é para todos quantos queiram, não tem um limite estipulado, pois tenho recursos suficiente para gerações. A única coisa que peço é que se perguntem a si mesmos se, realmente querem deixar de ser órfãos e passar a ter alguém à quem possam chamar de pai?”.

Após algum tempo ele se preparou para a chegada de várias crianças, reformando quase todos os cantos da casa para que todos se sentissem bem e tivessem suas necessidades supridas.

Passados oito meses sem ter uma única visita, um único telefonema, um único contato, ele já estava perdendo as esperanças. O que poderia ter ocorrido? Porque ninguém havia aparecido? Ninguém mais precisa de um pai? Ou será que nem leram a minha carta? Com tantas perguntas em mente e bastante atordoado, não sabia o que pensar. Achou que tinha enlouquecido e que havia gastado tempo e dinheiro em vão.

Duas semanas depois, eis que batem a sua porta duas personas, um oficial de justiça e um garotinho. Eles entram, deixam o garotinho na sala e se dirigem a um escritório para conversar. O oficial de justiça, demonstrando uma certa inquietação lhe explica que o garotinho chorou muito lendo a carta e que não parava de pedir para ir conhecê-lo. Depois de ser impedido várias vezes pelo instituto onde estava, o garotinho chegou a ficar doente de profunda tristeza, até que os diretores do lugar autorizaram o encontro. Ele alertou que, se aquilo fosse algum tipo de piada, ou se ele fizesse algo ao garoto, o Estado não iria poupar esforços para ele apodrecer na cadeia.

Muito animado, ele foi apresentado ao garotinho que igualmente não conseguia esconder tamanha felicidade. Nos meses que se seguiram, eles foram visitados toda semana pelo oficial de justiça, que ficou convencido dos bons propósitos ali envoltos e concedeu a guarda definitiva da criança.

Em um dos dias de passeio e conversas que tinham, ele ficou bastante curioso porque somente aquele único garotinho havia aparecido e perguntou:

– “Meu filho, todos vocês receberam minha carta? ou você conseguiu de algum jeito ter acesso à ela?”.

E o menino respondeu:

– “Todos nós recebemos sua carta.”.

Então ele continuou:

– “Então porque somente você demonstrou tamanho interesse em me conhecer? Será que só você sentia falta de carinho, afeto, de ter um pai?”.

O garotinho, com um sorriso no rosto, lhe disse:

– “Você não sabe o que é ser abandonado, viver sem família. Lá dentro, nós somos as famílias uns dos outros. Quando todos leram sua carta, parecia bom demais para ser verdade. Uns riram, outros ficaram extremamente bravos, mas a maioria somente ficou com medo. Eu também tive medo, mas por algum motivo qualquer, também acreditei em todas as suas palavras, principalmente quando você se comparou a nós e se chamou de nosso companheiro na solidão. Isto foi maior do que meu maior medo. E já não tendo nada nesta vida, não pude deixar de ao menos tentar ter algo. Principalmente este algo que sempre quis ter.”.

Impressionado com a resposta do filho, ficou consolado, mas ao mesmo tempo tolido pois, não tinha meios de quebrar esta opressão invisível que assolava aquelas crianças. Dependia somente delas, de sua pulsão interior saltar para fora das amarras, assim como ele mesmo tinha feito.

Na manhã seguinte, ao acordar radiante para mais um dia na presença do filho e praticar um pouco de esporte juntos, percebeu no ar um pouco da velha quietude que aquela casa já não tinha a tempos. Correu para o quarto do filho e ele, lá não estava. Percorreu a casa toda, gritou algumas vezes e nem sinal do menino. Ele havia sumido! Imediatamente ligou para a polícia e, em seguida, para o oficial de justiça. Seu pavor cessou e deu lugar a angústia, quando o oficial lhe disse que o menino estava aparentemente bem, havia voltado para o orfanato e não queria dizer o motivo. Também não pediu para cancelar a adoção, somente pediu para entrar e ficar com os amigos de longa data. Eles iriam examiná-lo e entrariam em contato novamente para um interrogatório, afim de descobrir o porque de fato o menino havia voltado e se ele tinha feito algo de ruim para a criança.

Desolado, destruído e sem saber o que pensar, sentou e ficou na sala por algum tempo. Pensou em ir até lá, mas ponderou supondo que poderia agravar a situação. Assim como o garoto veio por querencia, ele não iria força-lo a permanecer. Decidiu, como pai que aprendera ser, esperar a decisão do menino, em quem ele confiava e sabia que não inventaria nenhuma mentira acerca dele e de seu tratamento enquanto esteve naquela casa.

As horas passavam, ele não havia almoçado, não sentia fome, não sentia nada. Estava com medo que o menino não quisesse mais votar, com medo de, quem sabe, nem o real motivo saber. Será que a conversa do dia anterior lhe deixou com saudade dos amigos? Será que trouxe a lembrança sua antiga “família” e decidiu que deveria ficar com eles? Que não era digno de levar outra vida? Muitas perguntas, nenhuma resposta, novamente muito silencio. Sem se aguentar mais, resolveu tomar alguns calmantes, para aliviar a imensa pressão que caia sobre seus ombros. Em seu pesar, ele resolveu que queria fugir daquela situação, queria que aquele momento infernal passasse e não queria fazer parte daquele processo. Tomou uma overdose de calmantes e apagou.

Dois dias após seu entorpecer, ele acordou em sua cama, com um soro dependurado no braço e um cartaz bem grande no quarto onde se lia: “Bem vindo de volta Papai!”.

Ele se levantou com cuidado e, carregando o soro, se aproximou da janela de onde se via o jardim de sua casa. Pasmo, contemplou a visão mais bonita de sua vida. Várias crianças corriam e brincavam no jardim, num parquinho que havia construído e num campinho de futebol. Para ele era impossível tudo aquilo. Quando se voltou novamente para o quarto, podia ouvir barulhos que ecoavam por toda a casa. Gargalhadas, gritos de alegria, passos apressados. Sentou novamente na cama e verificou o relógio. Constatou o tempo que havia adormecido e se lembrou dos calmantes. Neste instante, entrou no quarto o oficial de justiça, uma enfermeira e seu filho que havia fugido. A enfermeira aferiu sua pressão e, removendo o soro, deixou o aposento. Eles então começaram a conversar.

O oficial lhe explicou que o garoto havia voltado, não para ficar no orfanato, mas para contar à todos os outros o quanto feliz ele estava e como era bom ser amado e ter uma pai de verdade. O garoto, o abraçando forte e pedindo mil desculpas, continuou, dizendo que não havia outra forma de fazer com que os meninos acreditassem nele. Ele também preferiu não contar com receio dele não gostar da ideia. Deixando aparentar um pesar, ele afirmou: – “É certo que nem todos acreditaram, já não podemos fazer mais nada por eles.”, entretanto voltou logo a sorrir quando deu a boa notícia de que 15 amiguinhos resolveram também que gostariam de ser adotados, gostaria de ter um pai e queriam ir morar com ele daquele dia em diante.

Aquele dia se encerrou com ele assinando todos os documentos de adoção quanto apareceram e conhecendo um a um, pelo nome, pelo rosto, pelo sorriso, pelo piscar dos olhos, aos quais passou a chamar também de seus filhos!

O correr desta notícia, alcançou os demais orfanatos que igualmente receberam a carta. A notícia teve mais impacto que a carta, o que fez com que mais crianças tomassem coragem e escolhessem mudar de vida, mudar da vida que elas não escolheram, mas de lutar contra o sentimento que havia encruado nelas, de vergonha, medo, desilusão, amargura ou raiva que haviam adquirido pela rejeição ou fatalidade sofridas.

Desde então, o homem não ficou mais tão rico de dinheiro, já que precisou gastar fortunas com escolas, roupas, passeios e demais feitas. Agora ele era rico do que nunca havia tido, e que, uma vez tendo, o impulsionou a dar o que recebeu. A única coisa que, quanto mais se dá, mais temos, que é o Amor.

Hoje em dia, ele continua a adotar filhos. Se recusou várias vezes a abrir um orfanato com a alegação de que já não era mais um homem de negócios, que ele agora era somente um pai e que, se precisa-se, compraria um ônibus maior para passear com sua família.

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